Henrique (Carlos Bicalho) Oswald

Henrique (Carlos Bicalho) Oswald, nasceu na Tijuca, Rio de Janeiro, no dia 18 de junho de 1918, filho do pintor e gravador Carlos Oswald e de Maria Gertrudes Bicalho Oswald, e neto do compositor Henrique Oswald. Começou a pintar em 1942 quando era fiscal do IAPEREC, em S. Paulo. Mais tarde, deixando a função, voltou para o Rio, pintando e gravando velhos, mendigos e “Tiradentes”. Algum tempo depois, o homem desapareceu de suas gravuras e quadros, persistindo somente através dos grandes contrastes de luz e sombra e de seus temas (pipas rasgadas) cidades desertas com minúsculos cachorrinhos (“A igreja e os cachorrinhos abandonados”) as noites escuras (“A noite da única p… acordada”) a atmosfera dramática da existência humana.

Era o tempo que versejava, buscando expressão para as experiências vividas na infância:

“melhor faz o calafate
brincando com seus pauzinhos
quando fala não sai nada
de dentro de sua boca
nem anda com pé quebrado
de chutar bola de ouro”

E lamentava: “A boa fada não calculou ter a princesinha de andar com um saco pendurado ao pescoço só para que as pedras preciosas não caíssem no chão”.

Henrique era um tímido que amava profundamente a vida. Cresceu vendo seu pai Carlos Oswald, trabalhar dia e noite; durante o dia pintando paisagens, retratos, flores e cenas religiosas, das quais muitas vezes foi modelo, e à noite ensinando gravura no Liceu de Artes e Ofícios do Rio (primeiro Professor de gravura em metal do Brasil) onde Henrique o acompanhava. Vivia do que vendia. Pintava em série, “medalhões”, “reservas morais”, executados simultaneamente. Mas, ainda assim, divertia-se a seu modo. Assobiando suas próprias músicas e pintando: vinte pares de olhos, depois vinte narizes…

Desde logo alcançou grande domínio da técnica, tanto em óleo como em gravura. 1947 foi o ano da sua primeira exposição individual no Museu Nacional de Belas Artes e aquele em que substituiu seu pai, aposentado, na cadeira de Gravura do Liceu de Artes e Ofícios. Em 1948 ganhou Medalha de Ouro do Salão Nacional, seção de gravura.

Fez pintura religiosa, murais e vias-sacras em S.Paulo e Rio: a grande concha central da Capela da Santíssima Trindade do Seminário de Botucatu (S.P.), murais das “7 Dores de Nossa Senhora”, no Educandário em Jacarepaguá (Rio) , Igreja N.S. Consolata (Rio) , e outras.

Em 1952, por ocasião do Prêmio de Viagem ao País, foi à Bahia e documentou sua paisagem e tipos humanos. O desenho “Pelourinho”e a gravura da Feira de “Água de Meninos” levou-o à Europa (Prêmio de Viagem ao Exterior, 1954) onde ficou por dois anos com a mulher, Jacyra e o seu filho, Thomaz.

Freqüentou no Rio o curso dado por André Lhote. Em Paris, trabalhou no ateliê de Friedlaender (gravura em metal). Alguns anos mais tarde, 1959, volta definitivamente, fixando-se em Salvador e ensinando gravura na Escola de Belas Artes e pintando sempre. Foram quadros abstratos, as xilografias, onde os grandes contrastes, tamanhos e valores, seguiam ainda sendo a constante de toda sua obra. Depois o retorno à figura, ao humano e aos velhos casarões coloniais, sua linguagem e seu verdadeiro mundo.

Maria Isabel Oswald Monteiro

 

Introdução do Catálogo da primeira exposição póstuma: “Henrique Oswald na Bahia” por Jorge Amado

“De repente Henrique Oswald não estava mais entre nós e todos nos demos conta de um vazio, de uma modificação da paisagem, como se fosse menor o calor do sol, como se o dia fosse menos alegre. Henrique Oswald era uma alegria serena, uma seriedade sem tristezas nem bitolas, uma consciência criadora, uma presença cordial e fecunda. Alguns artistas importantes que se instalaram na Bahia, vieram nos enriquecer: Pancetti, Carybé, Rescala, Hansen, para citar apenas alguns. Entre os que mais nos enriqueceram, entre os que se tornaram inteiramente baianos, devotados de corpo e alma à Bahia, se situa a nobre figura de Henrique Oswald. “Sou um artista baiano”, declarou a um jornal do Rio pouco antes de morrer, e talvez nem ele próprio se desse conta da inteira verdade dessa frase e de seu profundo conteúdo.

Houve um Henrique Oswald antes da integração na paisagem física e humana da Bahia e ainda há poucos dias tive ocasião de admirar trabalhos seus dessa fase de certa maneira tão distante – menos no tempo que num espaços de criação, vital. Belos trabalhos, a alma inquieta de um artista que se buscava com avidez e seriedade. Mas, foi aqui, diante desses sobrados, dessas igrejas, dessa humanidade cordial que ele se encontrou. Aqui, de vez e para sempre, ficou, dando-nos de si quanto lhe era possível, ou seja, muitíssimo, pois Oswald não sabia dar-se pela metade, era feito de uma peça só, íntegro e inteiro. Deu-se a essa cidade, fez-se povo, cidadão, seu enamorado e seu pintor, um baiano loiro e tímido, de riso discreto e alma boníssima. Muitas vezes ao cruzar uma rua, ao entrar numa galeria de pintura, ao atravessar o páteo da Escola de Belas Artes, ao descortinar a paisagem sem igual do alto de uma ladeira, sinto a ausência de Henrique Oswald como uma injustiça, um crime contra a cidade, contra sua arte e sua gente. Porque partir tão moço ainda, quando apenas chegado?

Henrique Oswald viera de amadurecer sua experiência artística, fizera-se senhor de todo o seu ofício, um mestre dos maiores do Brasil: sua obra atingira aquela etapa de esplendor que marca a definitiva posse de metier pelo criador, quando a beleza faz-se sua companheira. Assim construiu sua fase baiana: desenhos, gravuras e óleos da mais alta qualidade. Casarios, monjas, madonas, igrejas, a Bahia com sua poesia e seus mistérios nos óleos cuja matéria possui uma luz mágica como se Oswald tivesse penetrado a segredo mais profundo dessa vida onde o real e a magia se confundem. De súbito, o marinheiro Oswald de largos oceanos e de conflito se fez poesia numa pintura de grandez incomum. Nos desenhos e nas gravuras explodia o drama de nosso tempo, protesto contra a opressão, a guerra, a tristeza, o avassalamento do homem. Nos óleos, porém, triunfava a Bahia, o mistério dos casarões.

Não sei de artista mais completamente fiel à sua arte, mais lúcido e conseqüente, mais orgulhoso e humilde. Em Oswald o homem e o artista formavam um único ser, sensível ao mundo que o cercava, rico de vida interior, pleno de experiência humana. Henrique Oswald foi um grande da pintura brasileira: no silêncio, na modéstia e na consciência de seu ofício criou um mundo de beleza imortal. Sua obra crescerá com o tempo, se afirmará em sua beleza, como expressão de uma época e de uma gente, de uma paisagem e de um mistério – sua obra, patrimonio inestimável do povo brasileiro e em especial do povo baiano. Ele nos recreou e nos fez mais ricos de humanismo, deixou-nos em herança sua febre interior, sua confiança no homem, sua paixão vital.”

Trechos de cartas de Henrique Oswald à Jayme Maurício

Um dia lhe perguntaram porque pintava, o que era preciso para gostar de sua pintura e se a Arte é importante. Respondeu: “Se as cidades fossem como eu as pinto, a mim me bastaria contemplá-las. Há muita gente que se contenta com isso, com olhar o que lhe parece ser cem por cento belo. O pintor é justamente quem não se satisfaz com tal coisa. Tem visões dentro da cabeça que, para ele, são melhores que os panoramas que a Natureza oferece E, naturalmente, gosta de sentir estas visões materializadas. Gosta de vê-las com os olhos e não só com a imaginação. Acontece que gosto de certos tons escuros, de certas texturas, de certo mistério e de certas composições. Como a natureza não tem essas coisas, eu gostaria que tivesse. E pinto como desejaria vê-la. Quem gosta da madrugada, do frio e do silêncio; quem gosta um pouco da solidão e do mistério, e principalmente quem tem saudades, deve gostar de meus quadros. Mas às vezes me pergunto se uns quadrinhos pintados por brinquedo, tem valor num País que luta para a solução de problemas de vida ou morte. Sem a menor dúvida, a Arte começa sendo um brinquedo. Mas é um brinquedo vital, tanto quanto o Amor e a comida. O brinquedo é uma litação necessária para o equilíbrio da vida, de uma energia supérflua que, de modo nenhum, o homem pode deixar de gastar. Depois de despender a energia que lhe garante a sobrevivência, o homem conserva ainda uma parte que não foi utilizada e tem, necessariamente, que libertá-la. Isso é o que se chama brinquedo, jogo, passatempo. Uma coisa importantíssima e um problema terrível nas comunidades subdesenvolvidas. O brinquedo torna-se Arte quando carrega a marca, o mundo interior, a expressão de quem brinca. A ciência pura também começa sendo brinquedo. Newton brincava de pensar. Pensar era o passatempo de Einstein. Pintar era o passatempo de VanGogh, que morreu de tanto brincar, de pintar em lugar de trabalhar para sobreviver. A Arte é o contrário da luta pela vida, o contrário da luta, o contrário da guerra, o contrário da morte. Digo que a Arte é bem importante!” (Carta à Jayme Maurício, 1964).

“…Mas há mais uma coisa de que gosto e que o mundo não tem. Nem os Homens. É a transparência. Sem esquecer o mistério que o mundo vai perdendo…” “…e, certamente, a velha Bahia, minha velha Tijuca, meu velho 1925. Meus velhos segredos, minha velha religião” (Carta à Jayme Maurício, 1964).

 

Texto de José Roberto Teixeira Leite sobre a pintura de Henrique Oswald

Sobre a pintura de Henrique, que no início de sua carreira assinava-se H.C.B. Oswald, passando depois a assinar somente Henrique Oswald e simplificando no final somente para Oswald, falou o crítico José Roberto Teixeira Leite, em novembro de 1966:

“Quer-me parecer que as características mais nítidas da pintura de Henrique (de OSWALD, como se assinava) são as seguintes:

Prêmios:

Medalha de Prata no Salão Nacional de Belas Artes em 1947
Medalha de Ouro no Salão nacional de Belas Artes em 1948.
Medalha de Prata no IV Salão Municipal de Belas Artes , Rio, 1954.
Medalha de Ouro no Salão Baiano de Belas Artes em 1954.
Prêmio de Viagem ao País, Salão Nacional de Belas Artes em 1952.
Prêmio de Viagem ao Estrangeiro do Salão Nacional de Belas Artes, 1954.
Prêmio Isenção de Júri no Salão de Arte Moderna , Rio em 1961.
Prêmio de Viagem ao E.E.U.U. do IBEU, Rio em 1961.
Prêmios de Aquisição nos salões de arte Moderna do Rio de Janeiro e de S. Paulo.
Obras no Museu de arte Moderna do Rio e Museu do Estado da Bahia e Museu de Arte Moderna da Bahia.

Atividades didáticas:
Professor de Gravura no Liceu de Artes e Ofícios do rio de janeiro, 1947.
Docente Livre da Cadeira de Gravura de Talho doce, água-forte, e xilografia . Catedrático Interno da mesma Cadeira, de 1959 a 1965.

Exposições:
Roma – Rio de Janeiro – São Paulo – Salvador.
Coletivas diversas, inclusive I, V, VI e VII Bienais de são Paulo.

Faleceu no dia 12 de dezembro de 1965.

(Extraído do texto de sua esposa, Jacyra Oswald, para o catálogo da primeira exposição póstuma “Henrique Oswald na Bahia”)

 

Veja também:

Video sobre Henrique Oswald na Bahia: Dois Depoimentos (Mário Schenberg e Emanoel Araújo) e um Poema (Fernando da Rocha Peres). Direção, roteiro e narração: Jacyra Oswald, publicado em 2011

A Gravura de Henrique Oswald: Do Ensino à Produção de Arte. Dissertação de Pós- Graduação de Virgínia de Fátima de Oliveira e Silva, 2009

A Gravura de Henrique Oswald: Do Ensino à Produção de Arte. Artigo de Virgínia de Fátima de Oliveira e Silva